domingo, 13 de outubro de 2013

O incômodo, a escolha - Das razões para estudar a morte

Prado/BA, década de 70.

            Tudo começou com um incômodo. Uma sensação que me acompanhava na volta dos velórios da minha infância. Silenciosa e astuta, procurava entender aquele travo na boca, a secura no estômago. O defunto me causava repulsa, talvez pelo costume corrente de fazer as crianças beijarem-lhe os pés para, da morte, perderem o medo. Sou grata até hoje à minha mãe que, avessa ao que chamava de crendices, nunca obrigou filho algum a encostar os lábios nos pés frios e, àquela altura, melados de saliva das assustadas crianças. O que me atraía para o ambiente da morte era o movimento dos vivos. Tornava-me quase invisível a observar os adultos nas cozinhas das casas. Do pranto na sala, o que se via nos fundos e nos quintais, até mesmo nas calçadas frente à casa do finado, era um prenúncio de festa. Alguns se dedicavam ao preparo da beberagem, enquanto mãos hábeis confeccionavam coroas de flores que enfeitariam o cortejo. Choros, risos, cores e cheiros - das flores, das bebidas e das velas. Amigos tiravam o chapéu em respeito ao defunto, cumprimentavam a chorosa família na sala e escapuliam para os fundos, lugar das conversas e piadas que manteriam todos acordados. Raramente ouvi músicas nesses velórios, pois eram reservadas à noite, esta vetada às crianças. Mas eram as cores do dia que me interessavam. Meninas magras, de roupas curtas, enchendo bacias de alumínio com flores pedidas de porta em porta. "Quem morreu? Morreu de quê?" ─ perguntavam as donas dos jardins, pois a identidade do defunto importava na seleção das flores. 

Mimos do céu (Antigonon leptopus), a flor permitida.
  Minha mãe, zelosa das roseiras que cultivava - brancas, amélias, vermelhas, dobradas - só doava as flores de menor categoria: jacintos, margaridas e mimos-do-céu. Achava lindos os mimos-do-céu que minha mãe tanto desprezava, colhidos de uma trepadeira resistente às constantes podas e que insistia em tomar todo o muro da nossa casa. Eram cachos de minúsculas flores cor-de-rosa, contrastantes com o forte verde da folhagem e o intenso azul do céu. Ao pedido das meninas à porta, já nem consultava minha mãe. Enchia-lhes as bacias da flor permitida, antecipando ao morto os mimos que, pensava, receberia no céu.

     Morto importante tinha o nome anunciado no alto-falante do cinema. Mas era sempre S. Zé Gonçalves, o marceneiro, com trena e amostras de tecido, quem acertava a confecção do caixão. Numa cidade onde quase todos os vivos se conheciam, muito se sabia dos gostos e preferências dos mortos. Por isso, seus ataúdes eram personalizados nas medidas e nos adornos. Defunto pesado, caixão reforçado; enterro de anjinho, caixão azulzinho; defunto pobre, forrado de chita; defunto rico, enfeitado a capricho... Era um artista, S. Zé Gonçalves. Leia o restante do texto clicando abaixo em Mais Informações. 
       O caixão era sempre disposto na sala, com os pés do defunto voltados para a saída da casa. Acreditava-se que, quando o corpo dali se fosse, não mais voltaria à casa em estado de alma penada. Ao chamado do sino, lá ia o defunto em cortejo, a caminho da Matriz. Os que ficavam logo providenciavam varrer a casa, as vassouradas sempre em direção à porta da rua, lá jogando os grãos de areia deixados pelos sapatos dos visitantes.
                E assim seguiam os rituais fúnebres da cidade, que vez ou outra tinham seu ritmo alterado por alguma novidade trazida pelos veranistas que frequentavam suas praias. Foi o caso de uma família goiana, que insistiu em velar um dos seus na capela abandonada do cemitério. Ao rejeitarem a intimidade da casa, mesmo que de veraneio, preferindo a impessoalidade da capela, foram tidos como “desnaturados ou “sem consideração”. Também uma mãe brasiliense que, insistindo em sepultar seu pequeno filho à noite, sob a luz de candeeiros, foi acusada, pelo estranhamento à sua atitude, de tê-lo envenenado. Muitos acorreram à sua casa, gritando à sua porta: ─ "Foi aqui que morreu um menino que a mãe envenenou?"
Cemitério do Prado/Extremo Sul da Bahia

         A mim, causava estranhamento o estado do cemitério, construído à beira do rio, sem muro algum, embora ostentasse um pesado portão de ferro preso a duas colunas. À sua entrada, a referida capela, sempre fechada e caindo aos pedaços. Em seu entorno, uma espessa vegetação de mangue, que escondia antigas sepulturas cujo destino era o leito do rio. Durante um bom tempo dividi com amigas de infância uma forte aversão aos peixes de água doce, por mais saborosos que fossem, pois acreditávamos que eles se alimentavam de restos dos cadáveres cujos túmulos eram levados pela correnteza. Apenas um mausoléu resistira ao tempo e as águas, pertencente a uma importante família. Túmulos simples, de tijolo e cimento, encravados na areia preta e fofa, que encardiam os pés dos visitantes no dia de finados. Quanta algazarra neste dia! Muitas cores nas roupas novas e nas flores levadas aos mortos. Enquanto os adultos matavam saudades ou retiravam as ervas daninhas dos túmulos, as crianças se espalhavam pelo areal, por sobre os pobres ali sepultados na terra chã. Esconde-esconde, picula e, vez ou outra alguma mais corajosa levantava com os dedos alguma caveira, retirada dos caixões abertos nas covas rasas... Mais algazarra e correria. Nunca mais comi carne de tatu, ao ver um deles saindo de uma dessas covas.
         Foram poucas às vezes em que fui ao cemitério, pois só um familiar àquela época lá fora enterrado, minha bisavó que eu nem conhecera. Seu túmulo ficava na entrada do cemitério, devidamente protegido dos ataques do rio. Além do mais, minha mãe era um pouco avessa aos acontecimentos sociais... Portanto, das vezes em que lá fui, nenhum sentimento de dor ou pesar me acompanhava, pois ia sempre com os vizinhos que iam visitar seus mortos. Liberada de compromisso com algum morto em especial, acabava por me dedicar à observação dos vivos.

Salvador/BA, início dos anos 90.

           Cemitério do Campo Santo, 1993, enterramento da minha tia Gisélia. Primeiro evento desta natureza que participei em Salvador, onde morava desde 1986. Dor. Mas o sofrimento não me “desligou” dos acontecimentos à volta do velório familiar. Que estranho a falta de privacidade. Nenhum sinal de aconchego para minorar o sofrimento. Uma constatação me inquietava: sepultamentos em série, nunca havia presenciado isso. Capelas minúsculas dispostas lado a lado, o que levava meus familiares e amigos a compartilharem o corredor com familiares e amigos de outros mortos. Outros mortos, outras dores. Choros e gritos misturados, nenhuma intimidade. A impessoalidade imperante me despertou a atenção. A luz não vinha de velas, e sim de luminárias cujas lâmpadas imitavam chamas. Portanto, meu olfato não identificou o familiar aroma de cera queimada misturado ao aroma das flores. Flores sem cheiro, flores de floricultura, arranjos confeccionados por profissionais, tão diferentes dos que fazíamos na minha cidade.
Cemitério do Campo Santo/Salvador-BA

          A cada cortejo que saía, funcionários limpavam rapidamente a capela para que outro velório começasse. Quantos mortos essa cidade “produz” por dia? Essa indagação me perseguia, eu, duma cidade com seus mortos esparsados ao longo do ano. Um capelão encomendava a alma de cada defunto, sem nada saber deles. Tão diferente dos sermões fúnebres personalizados aos quais me acostumara. Na despedida de um conterrâneo, sua trajetória era rememorada diante dos demais moradores da cidade do Prado. Aqui, a todo instante o capelão trocava o nome da minha tia, confuso com as inúmeras encomendações que fazia ao longo do dia. Nenhuma referência pessoal. Durante o cortejo, fiquei atenta aos mausoléus, com arte e arquitetura ostentando a história dos mortos de determinada família. Senti vontade de seguir pelos corredores, embora tenha me lembrado do areal escuro que cercava as sepulturas pradenses. Pela primeira vez pude ver as sepulturas verticalizadas, aqui chamadas carneiras. Tudo tão apertado e amontoado... A certa altura, respirei e abandonei os julgamentos aos quais o estranhamento me levara. Saí dali curiosa e cheia de indagações.

Salvador/1994, construção de um interesse acadêmico.


       Após ingressar no curso de História da Universidade Federal da Bahia, em 1994, comecei a frequentar o Arquivo Público do Estado da Bahia. Logo passei a auxiliar uma professora a coletar e transcrever testamentos e inventários dos baianos no período compreendido entre os séculos XVII e XIX. Nessa atividade, aproveitei para relacionar tais documentos às minhas pesquisas pessoais sobre a morte. Saltava dos documentos a infinidade de verbas testamentárias voltadas às preocupações do testador com sua morte. Declarações minuciosas informavam sobre o ritual fúnebre que queria para si, bem como sua ansiedade com a salvação da alma. Nos inventários, tive contato com os primeiros dados sobre os materiais utilizados nos enterramentos e os custos referentes ao funeral.
        A leitura do livro A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX, de autoria do historiador baiano João José Reis contribuiu para a decisão de empreender estes estudos. Daí, parti para a aquisição de livros e passei a compor uma vasta bibliografia sobre o tema, com abordagens, sobretudo, historiográficas, mas contemplando obras de cunho filosófico, antropológico, psicológico e artístico sobre o tema. Das palavras de Confúcio, a inspiração: "Nós ignoramos tudo sobre a vida; que podemos então saber sobre a morte?"  

24 comentários:

  1. Olá, Adriana. Uma amiga me indicou seu blog por saber que tenho interesse sobre o tema. Sei que ainda está em fase inicial, mas pretendo acompanhá-lo e apresentá-lo à minha mãe, que acha um tanto estranho minha atração sobre esse assunto.Você tem alguma sugestão de bibliografia sobre o tema, mais precisamente sobre arquitetura cemiterial? Abraços. Voltarei aqui outras vezes.

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    1. Olá. Farei sugestões de bibliografia nas próximas postagens, partindo de obras mais simples, de caráter introdutório, para obras mais específicas sobre o tema. A respeito da arquitetura cemiterial, há algumas obras a serem indicadas. Se for possível, informe a região do país em que reside, para que eu disponibilize algumas pesquisas mais localizadas. Em princípio, sugiro que acesse o site da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais, cujo link disponibilizo abaixo.
      http://www.estudoscemiteriais.com.br/
      Abraços. Espero reencontrá-lo(a) por aqui.

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  2. Olá Adriana, seu blog está ótimo! Belo trabalho! É bom ver pessoas que se interessem por um tema tão cheio de preconceitos e ao mesmo tempo tão rico como a morte! Espero ansioso pelas próximas postagens!

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    1. Olá, Gabriel. Temos este espaço para trocar informações. Acompanhe as postagens e sugestões de leitura. Acredito que a melhor forma de lidar com o preconceito em relação à morte seja estudando-a e trazendo-a para a nossa vida. Você já pensou o quanto cultuamos e expomos o corpo, na proporção em que nos afastamos e tememos a morte? Pense nisso, pois quero muito conversar a este respeito. Abraços

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  3. Adriana, amei a sua postagem! Sucesso!

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    1. Obrigada, Jamylli. Volte aqui mais vezes, vamos debater este tema. Abraços

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  4. Nasci e e vivi também em uma cidade pequena do interior e me identifico muito com essa realidade. Suas palavras me fizeram ver um ritual fúnebre típico das pequenas cidades baianas. É muito difícil encontrar alguém que se abra a falar de algo que mexe tanto com o sentimento e que por questões culturais é visto como tabu! Gostei muito da sua proposta Adriana, acompanharei as próximas postagens

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    1. Pois é, Natália. Em meus estudos, venho percebendo como, ao longo da história alguns tabus se sobrepõem a outros. Enquanto nos afastamos cada vez mais do tema Morte como experiência de vida, maior é a profusão de imagens e notícias sobre ela. Os noticiários sustentam suas audiências transformando-as num espetáculo bem diferente dos tempos em que a morte era “uma festa”, numa alusão à obra do historiador baiano João José Reis, que bem escreveu sobre nossas relações históricas com o tema construídas ao longo dos séculos, dando especial atenção ao século XIX. Quanto mais pública, na atualidade, menos íntima é a morte. Falamos da morte do outro distante e nos privamos da vivenciá-la na intimidade. A morte tornou-se um tabu, contrapondo-se a outro, o tabu do corpo. Este cada vez mais exposto, leva-nos a pensar na perspectiva da finitude que tanto direcionou as ações humanas no sentido de evitá-la. O culto ao corpo seria, a meu ver, uma forma de driblar a consciência da certeza da morte. A partir da constatação da perecibilidade, o homem empreende esforços, criando tecnologia visando manter corpos mortos em estado que permitam ser ressuscitados no futuro, quando a medicina descobrir a cura do mal que lhes tirou a vida. Esta técnica, chamada suspensão criogênica, não apresenta garantia alguma, mas há lista de espera para quem quer fazer companhia aos mais de 130 cadáveres guardados em cápsulas de aço e imersos em nitrogênio, em baixas temperaturas. Espero voltar a debatermos a esse respeito, pois você fez referência interessante à construção do tabu da morte.

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  5. http://www.estudoscemiteriais.com.br/

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  6. Oi Adriana! Pelo teu relato fica bem claro que há uma distinção entre uma morte vivida e participada, vivenciada nas cidades do interior daquela tua infância, e uma morte já bastante impessoal, encomendada como um artigo último, uma última compra na qual já não se conhece o vendedor e muitos dos que se apresentam no entorno. Parece que a celeridade do processo e o 'desfazer-se' do morto rapidamente são a tônica. Seriam somente as grandes cidades as promovedoras dessa morte meio que "delivery"? As cidades do interior atualmente ainda guardam aspectos daquela morte em que o defunto passava por todo aquele ritual, ou outros de natureza semelhante? Ou, ao, contrário, o 'retirar' o morto de dentro de casa, do espaço da família e dos seus cultos também já tomou conta das pequenas e médias cidades do interior? Além dos aspectos da cultura, ou da postura que se tem e se passou a ter diante da morte ao longo do tempo, que outros aspectos da vida em sociedade podem explicar essa tendência à impessoalidade?

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  7. Olá, Sérgio. Interessantes suas colocações. Usarei novamente o exemplo da minha cidade para algumas reflexões. Nos meus retornos recentes à cidade de Prado, venho constatando algumas mudanças nas condutas fúnebres. A introdução de alguns comércios que participam diretamente dessa economia da morte, a exemplo das floriculturas e funerárias, é um indício. Entretanto, ainda não posso afirmar ser a instalação desses serviços fruto duma demanda latente ou se esta, em alguma medida resulta duma necessidade inicialmente forjada, porém aceita pela população. Na verdade, alguns ofícios vêm mudando ao longo do tempo. Os carpinteiros deixaram de confeccionar ataúdes e estes passaram a ser comprados em cidades vizinhas. Este mercado potencial deve ter sido percebido pelos comerciantes da região que vieram a, posteriormente, instalar-se na cidade. A presença de jardins é cada vez mais rara, tanto por alterações nos espaços construídos – cujos terrenos circundantes se tornaram novos lotes para membros da família ou para novos adquirentes – como também por mudanças de hábitos impostos por ritmos do cotidiano que lentamente, porém ininterruptamente, se alteram. Poucas pessoas dedicam-se a cultivar jardins. Não consigo imaginar meninas pradenses aceitando a tarefa de pedir flores de porta em porta (seria “pagar mico”?). A população da cidade cresceu significativamente, o que acaba por reduzir os laços entre seus moradores. Decerto o padre e outros líderes religiosos não conhecem boa parte da população, além do rebanho ter sido dividido pelas inúmeras igrejas evangélicas. A presença dessas novas denominações religiosas, cristãs, também trouxeram algumas alterações nos rituais funerários. Os cristãos evangélicos quase sempre são velados nos seus respectivos templos, de lá saindo o cortejo fúnebre. Há casos em que os velórios são interrompidos a certa altura da noite, sendo reiniciado pela manhã. Este novo hábito não parece estar associado a questões de segurança, como aqui em Salvador e outras grandes cidades. Antes, relaciona-se com as concepções e crenças dessas mesmas igrejas. Com o já citado aumento populacional veio o desemprego, submoradias e, com um invasivo e crescente tráfico de drogas, a mortalidade cresceu assustadoramente. Há dias em que ocorre mais de um sepultamento. Não são mais os enterramentos esparsos ao longo do ano. O único cemitério local, que disputa terreno com o manguezal e a margem do rio, está com sua capacidade esgotada, o que me leva a crer que em breve teremos na cidade outro espaço para sepultamentos ou a adoção da verticalização do espaço com a introdução das carneiras. Mas ainda não contamos com sepultamentos em série ou com a necessidade de “despachar” o defunto. Convivem, nesse novo cenário, aspectos de uma relação ainda íntima com a morte e o enterramento. Os cortejos continuam seguindo pelas ruas, embora o féretro não seja mais carregado por amigos do defunto, e sim por funcionários da funerária em carro apropriado. Porém, raramente o moribundo vem a falecimento em sua residência, próximo aos seus. Morrem os pradenses, em sua maioria, nos hospitais da região. Poderia partir para analisar as causas dos falecimentos: antes o comum era morrer na velhice ou “de susto, de bala ou vício”. Hoje grande número dos falecimentos provém de assassinatos ligados ao tráfico de drogas. Quanto ás doenças, são essas também merecedoras de investigação. O certo é que nunca foi tão grande o número de portadores de câncer e doenças degenerativas. Enfim, suas indagações desfiaram um corolário imenso de possibilidades de análise. Fico por contemplar seu último questionamento – a tendência à impessoalidade – numa próxima postagem. Espero que retorne a este espaço. Abraços.

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  8. Devorei com voracidade os artigos postados, não respeitei sequer a ordem cronológica das postagens, lendo do último ao primeiro. Esse tema desperta interesse pois ao estudar a morte(ritos fúnebres) revela-se a vida cotidiana das pessoas. Acompanharei com devoção e ansiedade as próximas postagens. Parabéns!

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    1. Olá, César. Comungo de sua postura. Estudar a morte revela muito dos vivos. Como disse, sigo a orientação de Philippe Ariès: “Esquecer-se da morte e dos mortos é prestar um péssimo serviço à vida e aos vivos”. Costumo associar este estudo a uma esfera imensa de temas da contemporaneidade. Dedico-me neste momento a verificar esse "escondimento" da morte vivida na intimidade num tempo em que a morte violenta é publicitada intensamente. Pouco conversamos sobre a morte, relacionamo-nos com ela de uma forma impessoal, distanciada. A certeza da finitude leva o homem a empreender esforços na busca desenfreada pela longevidade. Percebo, aí, a permanência do principal motivo que levava os soteropolitanos a redigirem seus testamentos em tempos coloniais: o medo da morte, ora declarado, ora expresso nas entrelinhas, nos atos falhos ou no intenso desejo de perpetuar o corpo .

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  9. Que memória! Ao ler, revivi os poucos momentos que participei de alguns velórios, pois mãe não deixava a gente ir... Quando as meninas apontavam no início da rua com as bacias, saíamos correndo e gritando: Alguém morreu!

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    1. Pois é. Partilhamos essa memória, ainda em tempos de convivência natural com os rituais fúnebres que, a exemplo de outros acontecimentos, pontuavam o ritmo da vida na cidade. É interessante perceber como as alterações nos rituais fúnebres da atualidade advêm dum período longínquo. Quando essas mudanças seguem o fluxo da vida numa comunidade, elas vão sendo implantadas naturalmente. Porém, quando são frutos de atos verticalizados, de cima para baixo, como ocorreu em Salvador e em várias cidades brasileiras ainda no século XIX, algumas reações são bastante fortes. Na capital da Bahia, as determinações do governo em extinguir os enterramentos no interior das igrejas, seguindo motivações de cunho sanitarista, entre outras, transferindo-os para os cemitérios, provocou forte reação popular registrada na historiografia como Cemiterada. O solo das igrejas, considerado espaço sagrado, garantia aos fieis esperança da condução de suas almas ao céu ou ao menos à provisoriedade do purgatório, evitando a pena definitiva no fogo do inferno. Essa postura governamental só alcançou seu objetivo no meio do século XIX, quando uma epidemia de cólera assolou e devastou a cidade. A doença, vista por muitos como castigo divino, acabou por fazer com que a população aceitasse a transferência dos sepultamentos para um espaço secular. Em cidades menores, acompanhamos essas transformações que, mesmo num ritmo lento, chamam a atenção. A instalação de floriculturas e funerárias é parte desse processo.
      Abraços, espero que continuemos a trocar informações, lembranças e conhecimento.

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  10. Adriana,

    Que belo trabalho, por diversas razões entre elas ter vivido toda minha vida em Salvador não tive durante a infância a oportunidade de experimentar este contato com a morte.

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    1. Olá, Miriã. Realmente, a vida em grandes cidades acaba por situar a experiência da morte em áreas estritamente localizadas, distanciando-a dos que não estão diretamente envolvidos. Nas cidades menores, ainda é possível assistir aos cortejos fúnebres, mesmo que deles não se participe. Para a Bahia colonial há relatos de viajantes estrangeiros que estranhavam o hábito da participação espontânea nos rituais, por muitos vistos como um acontecimento social. A legislação eclesiástica obrigava os fieis a participarem da procissão do Viático, que levava o sacramento da comunhão ao moribundo ou doente incapaz de comparecer à igreja, porém os velórios eram concorridos, mesmo que não se conhecesse o defunto. Com as transformações dos espaços urbanos, essa proximidade com os rituais foi sendo reduzida, tornando-os um acontecimento restrito aos familiares. Mas hoje, até mesmo nas cidades menores, os costumes funerários vêm se alterando. Abraços, espero que acompanhe as postagens e exponha suas opiniões.

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  11. Maria das Graças Santana15 de outubro de 2013 21:22

    Dri, voltei no tempo e lembrei quantas vezes que após o enterro eu ficava no cemitério chupando os cajus bananas, enormes e doces. Mas para mim o melhor velório foi do Sr. Antônio Saquinho, fogueira, pinga e eu dancei ao som da sanfona. Continue sua pesquisa com sucesso.

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    1. Olá, Gal. Pois é, essas experiências resultaram num interesse acadêmico e aqui estou eu, publicando sobre a morte. Iniciei com a memória da infância por esta ser plena de significados e de relações com tempos históricos mais remotos. Espero que continue a acompanhar. Abraços.

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    2. Das melhores memórias da morte no Prado, esse velório me marcou...A casa vizinha à que eu morava, é claro que não dormi com aqueça festa toda. Ele merecia uma despedida assim. Bjs

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  12. Ola Adriana,
    Penso ser muito importante seu blog e podermos falar, discutir, sobre esses evento incrivelmente determinante e comum a todos nós, talvez seja a única situação que nos coloca exatamente iguais. Também venho de uma minúscula cidade do interior de minas, ai você imagina toda a tradição e os costumes mineiros, onde as crianças deveriam ser preservadas de qualquer notícia sobre morte, nós nunca podíamos ir a um velório não era lugar para criança não se falava sobre a morte e sempre nos era dito que essa ou aquela pessoa teria ido morar no céu e que cada estrela do firmamento era um dos que haviam sido chamados por papai do céu, durante muitos anos de minha vida acreditei nisso. Percebi que estava crescendo quando pude ir a um velório, de algum familiar que não me lembro quem, foi horrível não tive coragem de ver o morto e nem entrar na sala onde o caixão estava, tudo me incomodava o cheiro, os cravos, as velas e as pessoas.
    Neto de Avó biata e presidente da Congregação de Maria, já maiozinho, fui coroinha de igreja e presenciei algumas Missas de Corpo Presente, na minha cidade haviam as missas de corpo presente, não entendia muito aquilo, mas participava do evento assessorando o Padre na celebração, normalmente ele também conhecia o morto, era uma missa diferente, porem interessante, havia uma emoção e um silêncio no ar que eu não sabia muito bem como definir. Hoje tenho uma relação diferente com morte, entendo e acredito que seja uma passagem, uma transformação e que a vida continua em algum lugar, mas ainda assim não gosto de velórios, talvez por não gostar de despedidas, só vou se for extremamente necessário apoiar os que ficam. Não gosto de ver o corpo exposto as pessoas passando e falando algo , sejam lembranças ou a expressão no rosto do defunto, no gosto de cemitérios apesar de entender sua necessidade.
    Penso também que tudo isso seja proveniente da não discussão, do mito fúnebre e doloroso da morte, da dor, da ausência e do vazio que a perda provoca. Penso então em varias outras mortes subjetivas e concretas que temos ao longo da vida. Ler seu artigo me levou a refletir sobre sentimentos que às vezes não revelamos, sobre medos não expressados e sobre o apego, quero poder acompanhar você ler mais, absorver mais e poder também falar.
    Já fui gerente de um cemitério, desses do sistema de parque, mas isso será assunto para uma nova oportunidade
    Beijos

    Luiz Dupin

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    1. Olá, Luiz. Bom ler seu depoimento aqui. As memórias que construímos da morte e que foram aqui compartilhadas me levam a perceber o quanto não falamos dela e o quanto precisamos falar dela. A intensa exposição da morte nas mídias não nos torna mais íntimo dela, ao contrário, é uma experiência até para ser vista, mas não para ser vivenciada. Talvez daí o incômodo, o desconforto. É um interdito construído histórica e socialmente e não ousamos violá-lo senão por proteção a nos mesmos, numa defesa contínua de algo que mantemos afastado. Daí, duas constatações: a não vivência íntima da morte como um evento natural que ritma a existência humana (a morte tornou-se, na contemporaneidade, uma ocorrência antinatural); e o quanto queremos distância dela como se assim evitássemos a morte de nós mesmos. Partimos para uma relação com o corpo que extrapola os cuidados garantidores de uma vida saudável e passamos a perseguir a longevidade e até mesmo a imortalidade. O fenecimento do corpo é o norte às avessas, o ponto aonde não se quer chegar. Ainda usamos eufemismos em substituição ao verbo morrer: “viagem”, “passou dessa para melhor”, “Deus levou”, “virou um anjo” e “foi para o céu”. Em todos esses termos está presente a ideia de mudança, mutação, de passagem ritualística. Morrer ainda comete em transformação. Há uma construção cultural que permeia quase toda a humanidade, que é a crença de que algo há após a morte, que o corpo fenece, mas há uma permanência em outro ambiente. Essas concepções estão presentes em quase todas as culturas do planeta, servindo de base para as religiões. Mudam-se os ritos, os nomes para uma “geografia post mortem”, mas a concepção de uma pós-existência é quase unânime. Entretanto, ela está agregada a uma ideia de julgamento, merecimento a determinados lugares na já citada “geografia celeste”, um resultado do que foi vivido e praticado aqui. As religiões se fundamentaram e se desenvolveram a partir dessas crenças. As noções de culpa e salvação regeram a pedagogia do medo, sobretudo no Ocidente cristão, visando regrar o comportamento humano – e uma infinidade de produções artísticas corroboraram as ações católicas. Diante da morte, então, o moribundo se antecipava ao julgamento divino e negociava acordos com os vivos para que a sua alma fosse conduzida ao menos ao Purgatório, lugar provisório e estrategicamente criado pela Igreja Católica como um intermédio, lugar de onde se podia sair aos céus, a depender dos acordos que se fizera ainda em vida e das intercessões através das missas e orações encomendadas. Este medo que levava a estas ações ainda em tempos da colônia, de alguma forma subsiste em nós. O tabu que tínhamos em relação ao corpo, escondido e imposto ao recato, foi sendo substituído pelo tabu da morte: mostramos cada vez o nosso corpo; escondemo-nos cada vez mais da morte. No seu caso, Luiz, interessante é que toda a sua proximidade com os rituais a partir de certa fase de sua vida, culminando com a administração de um cemitério, não o deixaram impermeável a sensações tão fortes e inquietantes sobre a morte e o morrer. Quero saber mais disso. Obrigada pelo seu depoimento. Levou-me a reflexões acadêmicas e pessoais. Espero encontra-lo novamente aqui. Bjs

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  13. Adriana,
    Fiquei emocionada ao ler o seu blog, pois me remeteu a lembranças ricas e interessantes vividas na infância e adolescência, em minha pequena cidade do interior.
    Para mim, as situações de morte, assim como de nascimentos, apesar do ar de mistério em que eram envolvidas, de certa forma, sinto que foram vivenciadas com um grau de naturalidade na minha infância, sentimento pouco comum no relato da maioria das pessoas que conheço.
    Nos velórios, lembro-me especialmente dos momentos de histeria de algumas mulheres, que indicavam, inclusive, o quanto o defunto era querido e importante, a depender do número e intensidade dos “ataques”, como assim falavam. Até hoje, o perfume de muitas flores ainda me remete a essa lembrança e era com folia que eu e minhas amigas saíamos para pedir nas casas vizinhas, quando o morto era alguém conhecido. Ao mesmo tempo em que havia um pesar ao lado do caixão e próximo aos familiares, nos fundos da casa havia outro clima, com risadas, conversas e piadas, além das fofocas e comidas. Do velório para o cemitério, iam todos num cortejo pelas ruas da cidade, o que ainda acontece lá, apesar de algumas mudanças que chegam com a modernidade No cemitério, que ficava próximo à praia, havia uma crença de que não poderíamos levar para casa a areia que teimava em grudar nos pés e sapatos, pois traria mau agouro para a pessoa.
    Atualmente, tem despertado em mim um interesse por esse tema, talvez após eu ter feito cinquenta anos. É que pensar sobre a morte, inevitavelmente, me faz pensar sobre a vida, o que eu tenho feito com ela, como eu a estou vivendo e o que eu ainda pretendo viver.
    Comecei falando em nascimentos, pois acompanhei a parteira (D. Lélia) e a ajudei em alguns partos, ainda na adolescência. Nascer e morrer, morrer e nascer, são temas que, para muitos, inclusive para mim, caminham juntos, não é? Nas suas pesquisas, há registros sobre a dimensão espiritual, as crenças após a morte?
    Parabéns pela riqueza de seu trabalho.

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  14. Boa tarde, Adriana! Adorei ler as suas postagens e voltei no tempo ao lembrar dos velórios da minha infância...sendo também do Prado, tive a oportunidade de vivenciar um pouco daquilo que você descreveu. Apesar da proteção infantil, de não deixar as crianças participarem completamente das cerimônias, estive em velórios de pessoas muito queridas e amadas, como os meus avós, meu pai, minha mãe. Todos velados em casa. Depois uma missa de corpo presente e em seguida um cortejo até o cemitério da cidade. Já adulta, na morte de uma tia velhinha e querida, as crianças da família participaram e abriram o cortejo, todas de mãos dadas na frente do caixão. Uma cena linda e emocionante! Aqui em Salvador, entrei em contato com a impessoalidade da "coisa" no sepultamento de amigos queridos. Parabéns pelo Blog! Acho que será extremamente importante para compreendermos um pouco mais esta passagem...é vida que segue!

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